O que é a Psicose?

O que é a Psicose?

Quando um psiquiatra fala em Psicose está a utilizar um termo genérico para se referir a um conjunto de patologias da saúde mental, em geral graves, e que se manifestam com sintomas psicóticos. A mais grave e conhecida é a Esquizofrenia, mas o termo Psicose engloba várias outras doenças, tais como a Doença Afectiva Bipolar (antigamente, Psicose Maníaco-Depressiva), a Perturbação Esquizoafectiva, a Depressão psicótica, a Perturbação Delirante Persistente, a Psicose Induzida por Substâncias (“drogas”) ou outros quadros clínicos menos específicos (Psicose Sem Outra Especificação) ou com diagnóstico ainda por clarificar.
 
Mas então podemos perguntar: «E o que são sintomas psicóticos?». Para simplificar, podemos falar em sintomas positivos, negativos e cognitivos. Os sintomas positivos são habitualmente os mais evidentes (destacam-se como estranhos ou até bizarros aos olhos dos outros) e são os delírios e as alucinações. Os sintomas negativos incluem a avolia (falta de “vontade” e de iniciativa), a anedonia (ausência de prazer com actividades habituais do dia-a-dia), o desinteresse, alheamento e consequente isolamento social, desleixo pessoal e o embotamento afectivo (distanciamento ou “frieza” emocionais). Os sintomas cognitivos são frequentes e traduzem as dificuldades de atenção, concentração, raciocínio, planeamento e memória. Na esquizofrenia são particularmente evidentes, sobretudo ao fim de muitos anos da doença, podendo levar a um importante declínio do funcionamento habitual da pessoa (historicamente, a designação inicial da Esquizofrenia era “demência precoce”).  
 
Felizmente nem sempre estes sintomas surgem em simultâneo, podendo apenas surgir alguns, em diferentes combinações. Aspectos que se destacam, e que estão geralmente presentes, são a ausência de crítica (capacidade de reconhecer os sintomas como não compatíveis com a realidade ou a lógica), a desorganização do comportamento e a perda de funcionalidade (isto é, existir uma redução significativa do desempenho habitual da pessoa). Nos casos mais graves, essa “quebra” no funcionamento pode ser notória ao ponto de parecer haver um “corte” na trajectória de vida, surgindo objectivos de vida novos e crenças distintas das que eram próprias da pessoa. Este  aspecto deve chamar a atenção de quem convive com a pessoa e motivar a procura de ajuda médica. 
 
Uma vez que a evolução da doença depende muito do tempo decorrido entre o início dos sintomas e o tratamento (que muitas vezes é de anos), nas últimas décadas tem existido preocupação a nível internacional em facilitar o acesso rápido e precoce aos serviços de saúde mental, com acompanhamento mais intensivo das pessoas com psicose. Apesar disso, é ainda necessário diminuir o desconhecimento em relação à doença mental e vencer o estigma, pois estes são factores importantes que continuam a atrasar muito a procura de tratamento.

 
Joana Maia
Médica psiquiatra no Centro Hospitalar de Leiria

(Rubrica “Falemos de Saúde Mental”, publicada mensalmente no Diário de Leiria)