Dia Mundial da Anestesiologia

O Dia Mundial da Anestesiologia comemora a primeira demonstração pública com sucesso de uma anestesia geral que ocorreu a 16 de outubro de 1846. A medicina como hoje a conhecemos não seria possível se a anestesiologia não tivesse sido inventada. E desde então, a ciência e a arte da anestesia evoluíram e avançaram a um ritmo veloz até o cenário atual, onde o papel do anestesista é abrangente e não se limita ao bloco operatório. Atualmente, engloba a intervenção em emergência no pré e intra-hospitalar, terapêutica da dor aguda e crónica, anestesia dentro e fora do bloco operatório, tratamento e transporte de doentes críticos, simulação e formação médica. 
 
Por forma a aumentar o conhecimento sobre a Anestesiologia elaboramos um conjunto de perguntas e respostas que certamente vão contribuir para o aumento do conhecimento e a desconstrução de alguns mitos associados à especialidade médica.


Assista ao vídeo de registos fotográficos do serviço de anestesiologia aqui.


Conteúdos elaborados por:
Leonor Aniceto Gomes, Interna de Formação Especializada de Anestesiologia do CHL
Emanuel Santos Esgaio, Interno de Formação Especializada de Anestesiologia CHL
 

O que faz o Anestesiologista?

É o médico que é responsável por manter a homeostasia das funções vitais do doente durante um evento cirúrgico ou procedimento médico. Realiza essa função através da monitorização dos sinais vitais e do estado geral do doente. A especialidade de Anestesia é essencialmente diferente das restantes, na medida em que proporciona a intervenção das outras especialidades de forma segura e racional. É frequente que os doentes conheçam o seu médico cirurgião, mas não o seu anestesiologista, provando que somos como um “guardião incógnito” responsável pela manutenção da vida daquele doente.

Qual a importância da consulta pré-anestésica?

A consulta pré-anestésica é o momento ideal para avaliar e otimizar o doente à intervenção cirúrgica proposta. A avaliação pré-operatória procura identificar e quantificar os possíveis fatores de risco e tomar atitudes para, se possível, corrigir ou prevenir as complicações relacionadas no pós-operatório.
 
Esta consulta é fundamental para esclarecer sobre as abordagens anestésicas possíveis para a intervenção proposta. É também um momento importante para esclarecer possíveis abordagens para o controlo da dor no pós-operatório.

Posso continuar a tomar a minha medicação no dia da Cirurgia?

Durante a consulta pré-anestésica é confirmada a medicação habitual do doente e ajustada pré-operatoriamente de forma a otimizar o doente para a intervenção cirúrgica.
 
Considerando que cada doente é único, esta alteração é feita de forma individual, dependendo dos antecedentes clínicos e co-morbilidades do doente, tipo de cirurgia, risco cirúrgico, etc. De realçar que nem todos os doentes têm indicação para suspender os medicamentos para o “sangue fino”. 

Que tipos de anestesia existem?

Todos os tipos de anestesia administrados têm o objetivo de manter o doente confortável e sem dor durante uma cirurgia ou procedimento médico. Existem quatro tipos de “anestesia” que podem ser combinados entre eles. O tipo de anestesia que o doente recebe dependente da condição clínica do doente e da própria preferência, por isso é tão importante uma consulta pré-anestésica.
 
O tipo mais conhecido é a anestesia geral, anestesia em que o doente está inconsciente durante a intervenção cirúrgica, respirando por um tubo endotraqueal com o auxílio do ventilador mecânico que serve de “pulmão artificial”, e durante a qual são administrados vários fármacos endovenosos e gases anestésicos para manter as suas funções vitais normais. No final da cirurgia o anestesista reverte a sua medicação e aguarda a retoma do doente ao estado inicial.
 
Outro tipo de anestesia cada vez mais utilizada é a anestesia loco-regional. Neste tipo de anestesia uma parte do corpo fica “sem sensibilidade”, como um braço ou da cintura para baixo, permitindo a realização da cirurgia com o doente acordado. O anestésico local é administrado através de uma injeção ou de um pequeno cateter através de uma “picada nas costas” - raquianestesia ou cateter epidural - ou através de uma picada sobre o nervo a bloquear. Este tipo de anestesia é vantajoso nos tempos atuais devido à pandemia COVID-19 por não manipular a via aérea e assim diminuir o risco de contágio para os profissionais de saúde. Este tipo de anestesia poderá ser acompanhado do uso de sedativos e analgésicos que deixam o doente calmo e confortável. 
 
A anestesia local é um tipo de anestesia utilizada maioritariamente para pequenas cirurgias e envolve a infiltração de um anestésico local que bloqueia a condução nervosa e deixa temporariamente uma área anatómica sem sensibilidade/dormente. Este tipo de anestesia também pode ser utilizado para diminuir a dor nos pós-operatório.
 
Por último também temos os cuidados anestésicos monitorizados que são utilizados maioritariamente fora do bloco operatório. São realizados em procedimentos como endoscopias digestivas, intervenções em exames de radiologia e procedimentos cardíacos, neurológicos e pulmonares.

Quais são os riscos da anestesia?

Todos os atos médicos estão associados a potenciais riscos e complicações e a anestesia não é exceção. No entanto a probabilidade de uma pessoa saudável morrer durante uma anestesia geral diminuiu consideravelmente nos últimos anos, sendo atualmente comparável ao risco de uma viagem num avião comercial e é mais seguro do que uma viagem de carro (probabilidade de uma morte por 10.000 anestesias realizadas). É assim um dos atos médicos mais seguros a que pode ser submetido.

Quanto tempo é que tenho que estar em jejum antes de uma anestesia?

Simplificadamente terá que estar seis horas em jejum para comida sólida e duas horas para líquidos claros (água ou chá). Isto diminui o risco de aspiração ao realizar uma anestesia geral. Em situações de emergência, situação conhecida como "estômago cheio", em que não se pode aguardar as horas de jejum recomendadas, o anestesista toma precauções especiais para reduzir o risco de aspiração pulmonar. 

Problemas de dentição têm interferência na anestesia?

Uma parte da avaliação da via aérea é a observação do estado de dentição do doente. Neste caso, o anestesista vai querer saber se o doente tem falta de algum dente, dente a abanar, se utiliza prótese dentária ou se tem pontes/coroas.  Quando um doente vai ser entubado, os dentes a abanar, muito próximos entre si e a diminuição da abertura da boca podem resultar numa dificuldade acrescida à entubação, e em eventual danificação dos dentes, por isso todas as próteses se possível deverão ser retiradas e os dentes a abanar poderão ter de ser extraídos previamente.

Que tipo de avaliação e testes tenho de fazer antes da cirurgia?

Idealmente antes de qualquer intervenção anestésica, seja ela cirúrgica ou não cirúrgica, o doente deverá ser observado numa consulta pré-anestésica. Exames complementares de diagnóstico de “rotina” como análises, radiografia do tórax ou o eletrocardiograma num doente sem doença crónica e assintomático não tem qualquer interesse. Assim os exames são pedidos com base nos fatores de risco que o doente apresente, eletrocardiograma se o doente tiver fatores de risco cardiovasculares, radiografia pulmonar se houver risco pulmonar (doença pulmonar, fumador, etc.) e análises laboratoriais com base na cirurgia prevista e técnica anestésica prevista. 

Posso ter alergia à anestesia?

Existe sempre esse risco com a toma de qualquer medicamento. Geralmente na anestesia utilizam-se vários medicamentos, todos eles em geral bastante seguros. Por vezes os doentes pensam que são alérgicos à anestesia por terem tido uma experiência desagradável associada à anestesia, como por exemplo a ocorrência de náuseas e vómitos, tremores incontroláveis, sensação de estar acordado sem conseguir reagir. Tudo isto são potenciais efeitos secundários dos fármacos e não reações alérgicas. A acontecerem as reações alérgicas são na sua maioria ligeiras ou moderadas, muitas vezes sem necessidade de tratamento dirigido.

O que é a Unidade de Cuidados Pós-Anestésicos (UCPA)?

Vulgarmente conhecida como o “recobro”, a UCPA é o local físico para onde o doente vai após a intervenção cirúrgica ter terminado. Apesar da cirurgia ter acabado, o trabalho do médico anestesiologista não termina aí, estendendo-se até ao momento em que se considera que todos os efeitos relacionados com a anestesia administrada tenham terminado. Além disso é o local apropriado para gerir o tratamento da dor que possa existir após a intervenção cirúrgica. Esta unidade no nosso hospital é composta por enfermeiros e médicos anestesistas de urgência.

Artigo de Opinião - Dia Mundial da Anestesiologia - 16 de outubro

O Dia Mundial da Anestesiologia comemora a primeira demonstração pública com sucesso de uma intervenção cirúrgica com anestesia geral que ocorreu a 16 de outubro de 1846. O doente foi anestesiado com éter pelo dentista William Thomas Green Mortan, que inicialmente denominava o éter de letheon (do grego lethe, rio do esquecimento). Com isto tornou-se possível o desenvolvimento de todas as especialidades cirúrgicas pela possibilidade de realizar intervenções cirúrgicas “sem dor”, visto que até ao desenvolvimento da anestesia, as práticas cirúrgicas restringiam-se maioritariamente a pequenas operações superficiais e a amputações de membros associadas a agonia e sofrimento atroz.
 
A medicina como hoje a conhecemos não seria possível se a anestesiologia não tivesse sido inventada. E desde então, a ciência e a arte da anestesia evoluíram e avançaram a um ritmo veloz até ao cenário atual, onde o papel do anestesista é abrangente e não se limita ao bloco operatório. O seu espectro de ação engloba a intervenção em emergência no pré e intra-hospitalar, terapêutica da dor aguda e crónica, anestesia dentro e fora do bloco operatório, tratamento e transporte de doentes críticos, simulação e formação médica. 
 
Os doentes por regra conhecem pouco do que é a anestesiologia, e apesar do crescente reconhecimento e valorização da especialidade, esta foi considerada como um dos maiores avanços da medicina nos últimos séculos. Aliás em 2001 a prestigiada revista médica New England Journal of Medicine refere que a anestesiologia foi a disciplina médica que mais contribuiu para a evolução da Medicina no século XX.   Uma das principais funções do médico anestesiologista é manter a homeostasia das funções vitais do doente durante um evento cirúrgico ou procedimento médico. Realiza essa função através da monitorização do estado geral do doente, do seu sistema cardíaco, pulmonar, renal, cerebral e restantes sistemas. A especialidade de Anestesia é essencialmente diferente das restantes, na medida em que proporciona a intervenção das outras especialidades de forma segura e racional. É frequente que os doentes conheçam o seu médico cirurgião, mas não o seu anestesiologista, provando que somos como um “guardião incógnito” responsável pela manutenção da vida daquele doente.
 
A pandemia COVID-19 continua a mudar o nosso dia a dia e todos nos tivemos que adaptar, incluindo o bloco operatório do Hospital de Santo André, que neste momento tem duas salas operatórias exclusivas para receber doentes COVID-19. Em termos de anestesiologia foram tomadas medidas para manter a segurança do nosso ato médico e diminuir o risco de contágio entre os doentes e os profissionais de saúde. Talvez nunca tenha sido tão seguro realizar uma intervenção como no momento atual devido a todas as medidas que estão a ser tomadas para diminuir o risco de infecioso. De realçar que no momento atual, os médicos anestesiologistas têm um papel crucial no tratamento de doentes COVID-19. Sendo um dos profissionais de saúde com mais experiência na abordagem da via aérea, procedimento associado a aerossolização e maior risco de infeção por COVID-19, estão na primeira linha para o realizarem caso o doente necessite de ventilação mecânica juntamente com os colegas da medicina intensiva.

Artigo elaborado por:
Leonor Aniceto Gomes, Interna de Formação Especializada de Anestesiologia do CHL
Emanuel Santos Esgaio, Interno de Formação Especializada de Anestesiologia CHL